China, Israel e um ponto em comum: inovação como base

Os dois países colhem hoje o que plantaram nos últimos 20 anos de desenvolvimento

De um lado, a China com 1,3 bilhão de habitantes-consumidores, 10 mil anos de história, território continental e recursos naturais. Do outro, Israel com 0,1% da população de todo o planeta, 70 anos de existência formal e conflitos externos e internos. Entre os dois países, um ponto em comum: fomento à inovação tecnológica.

Tão distintos em realidades, tão iguais em objetivos. China e Israel colhem hoje o que plantaram nos últimos 20 anos de desenvolvimento. Um investimento estruturado do poder público no fomento à inovação – com subsídios, educação e infraestrutura — sustenta o largo passo que hoje os distanciam de quase todo o mundo, inclusive o Brasil.

Esse tipo de ferramenta propicia que cada vez mais dados sejam coletados e analisados. Quem trabalha e investe no varejo sabe que a mensuração de informações dos consumidores serve para corrigir falhas na estratégia de divulgação, racionalizar o estoque e tornar o produto atrativo para a compra. Mas e quando a pessoa sequer virou consumidora? Na China, já é possível averiguar os motivos que fizeram alguém desistir de uma escolha ainda no supermercado. Ao retirar o produto da gôndola, mas devolvê-lo em seguida, dados são gerados e, na sequência, analisados. O uso da inteligência artificial pode aumentar em até 25% a taxa de conversão na China, percentual enorme quando agregado a demais ações que levam à venda.

Em Israel, o investimento segue a necessidade. Com população 150 vezes menor do que a China, mercado interno restrito e regiões desérticas em mais da metade do território, o país busca independência de recursos. Tem o mesmo tamanho que a Paraíba, e apenas 20% de terra arável. Apesar disso, reúne mais de 400 startups de tecnologia agrícola, as agritechs. Mesmo a China tendo a maior fabricante mundial de drones, é Israel que produz drones que escolhem as maçãs maduras em uma plantação — e as colhem!

O país está em um seleto grupo de nações com a maior diversidade de tecnologias limpas e fornece soluções de cibersegurança para o mundo inteiro. Em maio deste ano, por exemplo, a israelense Deep Instinct começou a trabalhar com a HP no desenvolvimento de ferramentas com inteligência artificial para evitar ataques aos notebooks da marca.

No Brasil, a quinta nação mais populosa da Terra, com recursos naturais abundantes, vemos um ambiente que há décadas anseia por inovação e historicamente tem esforço maior da iniciativa privada do que do Estado para a alavancagem da tecnologia. Se o acesso à internet é subsidiado pelo governo chinês às áreas mais pobres, por aqui vemos um país em que 40% dos domicílios não têm conexão. Isso sem falar nos gaps de educação, saúde e mobilidade. E, hoje em dia, sem conexão à internet não há inovação significativa.

Os alicerces governamentais de Israel e China estruturaram a inovação de uma forma que garante o surgimento de fintechs, empresas com expertise tecnológica que oferecem serviços bancários. Ou seja, além dos bancos tradicionais, israelenses e chineses têm a alternativa oriunda do avanço tecnológico. Aqui as fintechs começam a ganhar relevância. O terreno é fértil, com 60 milhões de brasileiros sem conta bancária, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Em 2018, 35% de todos os smartphones vendidos no mundo foram para chineses. E os smartphones são ferramentas que eliminam dinheiro em papel e qualquer outra opção de pagamento físico, como cartão de crédito. AliPay e WeChat são nomes onipresentes na China. Principais meios de pagamento via telefone celular, utilizam a chamada Wallet, a “carteira virtual”, cuja movimentação se dá pela transferência de dinheiro a partir de códigos QR. O primeiro é líder na esteira da gigante Alibaba, colosso mundial em vendas. E foi pioneiro em utilizar o sistema de Wallet. Já o WeChat, que nasceu como o WhatsApp chinês, focado na troca de mensagens, estourou ao incorporar este mesmo tipo de pagamento. Porém, foi além. Na China, tudo pode ser resolvido pelo WeChat. É um “canivete suíço digital” com quase 1 bilhão de usuários.

Com a “carteira virtual” de ambos, mais do que pagar, são permitidos transferências, empréstimos, financiamentos. Em geral, os usuários unificam os pagamentos por meio das Wallets e somente efetuam o desembolso dos valores no próximo mês (como se fosse um cartão de crédito).

Importante: a análise de crédito é baseada em “score” pessoal, com algoritmo desenvolvido pelo Alibaba, hoje utilizado também pelo governo. Controverso, pois cria um ranking de pessoas, o score leva em conta comportamento, demografia e histórico de crédito, além de pagamento de compromissos em dia. Além de crédito, permite acesso a serviços diferenciados. Com número positivo, é possível, por exemplo, alugar gratuitamente uma bicicleta, em vez de pagar.

Em Israel, o Estado chamou para si a responsabilidade de fornecer as leis necessárias para tornar o país uma referência em inovação. Além disso, facilita o acesso a financiamento e dá as diretrizes para os próximos anos. As regras orçamentárias fazem com que 4% do Produto Interno Bruto sejam destinados a inovação. Para tanto, fortaleceu seu ecossistema de startups com fundos de venture-capital, aceleradoras e incubadoras, que têm segurança jurídica e econômica. Os fundos de venture capital já estão maduros, realizando muitas saídas bem sucedidas de investimentos.

O Brasil tem um desafio em relação ao seu futuro: sair de uma posição de expectador para a de protagonista. O novo cenário global vai exigir dos países uma agenda de inovação estruturada e que venha a alavancar a economia, gerando emprego, melhorando o índice de confiança junto a investidores e sobretudo garantindo o acesso ao conhecimento para toda a sociedade.

Fonte: Época Negócios

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